Fachada do São Luiz

Apresentação

 

Visita virtual ao Teatro

Theatro D. Amélia, o sonho dos torna-viagem
Corria o final do século XIX. Desembarca em Lisboa, com um sonho e uma fortuna recente, Guilherme de Silveira, actor e empresário de uma companhia de teatro profissional sediada no Rio de Janeiro. Era o que se chamava na altura um torna-viagem: emigrante vindo do Brasil, onde enriquecera, e que regressava a Portugal com ganas de investir o que amealhara no Brasil.
Regressado a Lisboa, junta um grupo de capitalistas numa sociedade destinada à instituição de um teatro que materializasse as aspirações artísticas do empresário. Juntam-se à empreitada, entre outros, o Visconde São Luiz de Braga, Celestino da Silva, Alfredo Miranda, Alfredo Waddington e António Ramos. Reunido o financiamento, determina-se a localização da obra na Rua do Tesouro Velho, actual António Maria Cardoso, ao Chiado.
O projecto de arquitectura é entregue a Ernest-Louis Reynaud, que dá forma à inspiração parisiense encomendada. A obra faz-se e a sala inaugura a 22 de Maio de 1894 com a ópera de produção italiana A Filha do Tambor-Mor, de Offenbach. A festa conta com a presença da família real e o sonho dos torna-viagem recebe o nome de Theatro D. Amélia, em homenagem à coroa e em agradecimento à cedência dos terrenos para pela Casa de Bragança, então proprietária de grande daquela zona da cidade.
A nova comodidade do dandismo do Chiado prospera como ponto de encontro do chique da capital e é gerida por Guilherme de Silveira durante cinco anos. Pouco antes de morrer, em 1900, passa a pasta ao Visconde São Luiz de Braga, que ficará até 1917, altura em que o lugar é entregue a António Ramos, outro dos sócios. Nas primeiras décadas passam pelas tábuas do D. Amélia grandes artistas de renome mundial como Sarah Bernhardt, Eleonora Duse, Novelli, Réjane, Coquelin, Maria Guerrero, Mounet-Sully e Antoine.

Começa o século do ecrã de prata
Interessado desde a primeira hora em reflectir na programação o melhor que o ar do tempo ia trazendo do estrangeiro, logo a 15 de Agosto de 1896, o D. Amélia foi a segunda sala – dois meses depois da estreia do ecrã do Real Coliseu – a mostrar o cinema ao público português. À época, a nova forma de expressão adquire o nome de Cinematógrapho – A Fotografia Animada. As imagens em movimento começam por se insinuar na sala do teatro com duas breves projecções, no intervalo e no final das peças em cena.
No dia a seguir às primeiras projecções, podia ler-se n’O Século: “Na plateia e galeria houve excesso de aprovação e desaprovação. Partidos, coisa que é frequente no Teatro”; o Correio da Manhã relatava “Uma verdadeira maravilha, o Cinematógrapho que se exibe no D. Amélia. Poderá não ser das mais úteis, mas é certamente uma das mais curiosas e das mais surpreendentes descobertas realizadas nos últimos tempos, esta da fotografia animada”; o Diário Ilustrado avançava que “o público gostou, o que corresponde a afirmar que se sucederão as enchentes no D. Amélia, animando assim a empresa a realizar um desejo que tem: mandar tirar fotografias [animadas] em Lisboa.”
O século vira, as imagens animam e, logo a seguir, implanta-se a República. Em linha com o passar dos tempos, em 1910, o D. Amélia passa a Teatro da República, mas permanece nas mãos dos mesmos proprietários. Quatro anos volvidos, em 1914, na noite de 12 para 13 de Setembro, um incêndio destrói praticamente todo o edifício e obriga a companhia do escritor teatral Lino Ferreira a transferir-se para o Teatro Nacional de São Carlos.
A reconstrução do edifício é entregue ao arquitecto Tertuliano Marques e, passado apenas um ano e meio, a 16 de Janeiro de 1916, o República reabre. Em 1917 passa a pertencer à família Ortigão Ramos, herdeira de um dos fundadores, António Ramos. Os novos proprietários adquirem os terrenos à Casa de Bragança e, em 1918, mudam-lhe outra vez o nome. Desta vez para Teatro São Luiz, em homenagem ao Visconde de São Luiz, por altura da sua morte.
A 7 de Abril de 1928, depois de várias sessões de cinema esporádicas, o São Luiz passa permanentemente a Cinema, passando a chamar-se São Luiz Cine. A estreia, épica, tem no cartaz Metropolis, de Fritz Lang, acompanhado por uma orquestra de quinze figuras dirigida pelo maestro Pedro Blanc. Executa-se a partitura original, escrita por Godfried Kuppertz.
O tempo volta a dar um ar da sua graça e aparece “o sonoro”. O São Luiz, comprometido com a marcha do pensamento vivo, é uma das primeiras salas a equipar-se para a era que se adivinha. Estreia o sistema em 1930, com o filme Prémio de Beleza, de Augusto Genina. O facto de assinalável rasgo para a época é que, em vez de exibir filmes mudos para os quais tinha, posteriormente, sido criada a trilha musical, o São Luiz decide esperar até haver disponível um filme concebido especialmente para esta fórmula. Ou seja, na transição do mudo para os talkies, o radar artístico do Chiado teve – antes de Hollywood – a presença de espírito suficiente para distinguir a diferença entre o sonoro e o mudo alcatroado com som.

Razão versus emoção
O Jardim de Inverno começou por ser sala de espera e bar. Inicialmente instalado ao nível do rés do chão, ostentava duas majestosas palmeiras autênticas que ocupavam o imenso pé direito até à cobertura. Com o advento do cinematógrafo adquiriu o estatuto de sala de espectáculos alternativa. Em 1911 passou a chamar-se The Wonderful. Foi ponto de encontro do mundo da literatura, do teatro e demais artes. As sessões começavam às 19h30, eram contínuas e custavam 100 Reis. Pouco depois passa da exibição à produção e é transformado em estúdio cinematográfico. Foi lá que foram filmados Maria do Mar, de Leitão de Barros e Ver e Amar, de Chianca de Garcia. 
Até hoje imagem de marca do espaço e do próprio Teatro, o célebre fresco do Jardim de Inverno é de Luigi Manini, arquitecto, pintor e cenógrafo italiano. Trazido a Lisboa, em Abril de 1879, para trabalhar no Teatro Nacional de São Carlos, os seus telões marcaram fortemente o teatro lírico, desenvolvendo, em especial, a perspectiva. Mais tarde, 1894, Manini realiza a decoração da sala do Teatro São Luiz.
O fresco do Jardim de Inverno oferece-nos a luta entre Héracles (Hércules em latim), o herói grego mais popular de toda a mitologia clássica,  e o Centauro Nesso, habitante das margens do Rio Eveno, onde exercia a função de barqueiro. Foi lá que encontrou Héracles pela segunda vez. O herói viajava com Dejanira, sua esposa, e precisava de atravessar o rio. Héracles atravessou-o a nado, mas confiou Dejanira ao barqueiro. Durante a travessia, Nesso tentou violá-la. Ela pediu socorro. Héracles trespassou o Centauro.
Na interpretação canónica das alegorias mitológicas, o centauro ilustra o conflito entre a razão e a emoção. Sendo humana a parte superior do seu corpo, teria a capacidade de reflectir sobre as pulsões da parte inferior: a violência física e o impulso sexual. Assim, centauromaquia serve de metáfora ao conflito entre os instintos e a civilização e terá sido esse o tema que inspirou Manini: a luta entre razão e emoção.

Animado pelas imagens em movimento, o São Luiz cresce e entra na segunda metade do século de mãos dadas com a sétima arte. Nos anos 60, exibia filmes em conjunto com o Cinema Alvalade. Não era apenas o mesmo filme, era literalmente a mesma película, uma única cópia do filme: o Cinema Alvalade começava a sessão 15 minutos depois e as bobines, à medida que iam chegando ao fim no Chiado iam sendo enviadas de paquete para Alvalade. Reza a história que quando havia problemas com o trânsito o público do Alvalade era obrigado a ficar impacientemente à espera da próxima prestação da narrativa.
Sobre a relação do Teatro com o cinema importa salientar que, nessa época, antes da exibição do filme, o público assistia a um documentário, a um desenho animado, a um jornal de actualidades e a trailers de novos filmes. O São Luiz Cine foi aliás bastante mais do que um repositório de cinema. Como já referimos, esteve também envolvido na sua produção, mas teve também um importante papel na discussão e divulgação. Em 1965 começa a organizar e apresentar festivais, com ciclos dedicados, por exemplo, a Fred Astaire e Ginger Rogers, ao neo-realismo italiano, à nova vaga do cinema francês e ao cinema novo português.

O Teatro da Cidade
Em Maio de 1971 o edifício é adquirido pela Câmara Municipal de Lisboa, actual proprietária. Mantem-se primeiro como cinema. Depois como desdobramento da Companhia do Teatro Nacional e, por fim, recebe uma efémera companhia residente, encabeçada por Eunice Muñoz e dirigida por Luiz Francisco Rebello. 
Aprestando o navio para a chegada do milénio, em 1999 o São Luiz é sujeito a uma intervenção de grandes dimensões. Palco, camarins, cadeiral e zona de público foram integralmente substituídos. Fez-se uma ampla operação de restauro na Sala Principal e o Jardim de Inverno foi reconstruído.
O Teatro Estúdio Mário Viegas, inicialmente localizado onde se encontra o restaurante, foi criado para acolher a Companhia Teatral do Chiado, dirigida pelo génio do actor e encenador que lhe deu o nome. As obras de recuperação e beneficiação do ano de 2000 incluíram a manutenção da existência da sala que passou a situar-se num espaço roubado ao antigo subsolo do Teatro, com entrada, agora, pelo Largo do Picadeiro. Até 2013 foi a residência permanente da Companhia Teatral do Chiado.

Desde a reabertura, a 30 de Novembro de 2002, o São Luiz Teatro Municipal assumiu como missão a entrega à cidade de um Teatro vivo, com público, enérgico, com centenas de sessões por temporada, por vezes em três apresentações diárias entre a Sala Principal e o Jardim de Inverno. Fazendo jus à história que transporta, ambiciona continuar a ser capaz de encontrar os fios de sentido dos dias que correm, apresentando o melhor do país e do mundo, cruzando a experiência dos consagrados com a novidade que começa a chegar através dos valores do futuro.   

Na Sala Principal continuam a cruzar-se com frequência os principais nomes da cultura portuguesa com estrelas universais como Pina Bausch, Terry Jones, Artur Pizarro, Maria João Pires, Ursula Rucker, Luís Tinoco, Edson Cordeiro, Wim Mertens, Anne Teresa De Keersmaeker, José Celso Martinez Corrêa ou o Théâtre du Soleil. Continuam a encenar-se autores como Eurípides, William Shakespeare, José Saramago, David Hare, Federico Garcia Lorca e Sophia de Mello Breyner Andresen, interpretados por actores de companhias como Cornucópia, Artistas Unidos, Praga, Meridional e O Bando, entre muitos outros. A música e a dança - com apresentações, concertos e recitais de todos os géneros e feitios; a visita regular de grandes orquestras; e a enchente anual da Festa do Jazz – continuam a ser prioridades que casam na perfeição com a natureza do espaço.


Por fim, o futuro. Cada vez mais, ao longo dos últimos anos, o Teatro tem integrado  na sua missão uma função educativa virada para os mais novos. O velho São Luiz aprende a importância de passar tempo com os netos e cria agora uma programação para os Mais Novos. Só assim se pode apresentar não como uma antiga sala de espectáculos, mas como uma máquina sempre nova e capaz de produzir futuro e maravilha.

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